sábado, 13 de novembro de 2010

Caminhando por algumas ruas perdidas no meio dessa cidade enorme depois de sair pelo portão de casa com a cabeça rodopiante de pensamentos confusos, me veio a súbita impressão de uma dissociação da minha própria matéria. Depois de aquela noticia entrar pelos meus tímpanos, ser reproduzida pelo meu cérebro cheio de neurônios interligados por sinapses nervosas, me dei conta que eu não mastigaria instantaneamente aquela informação, aquela conversa, aquelas lagrimas escorridas do rosto de quem eu devo a minha vida. E de um momento para outro, numa fração de segundos que pairava em algum relógio de parede de alguma casa daquela rua qualquer, me percebi afogada por uma realidade que estilhaçou todos os meus conceitos de realidade. Era como se eu já não fizesse mais parte desse todo integrante do nosso mundo de átomos e moléculas. Como se todas as pessoas andantes, todas as casas, os prédios, os carros, os semáforos, as arvores, as bicicletas, os postes de luz, as lojas, as pedras e concretos, estivessem alheios a minha existência. Como se eu fosse um animal perdido, fora do seu habitat natural. Tudo passou a ser tão superficial, sem naturalidade nenhuma. As coisas são de plástico, de tecido, de madeira, de tinturas que colorem as roupas e as coisas e os rostos de toda essa gente vazia, cheias de razoes, verdades e mentiras que contam por aí apenas para sustentar a própria vaidade e para encontrarem bons motivos que as façam sentirem mais felizes. E se satisfazem com tão pouco. Passam a vida toda procurando um sentido que alimente a ilusão de vivenciar o prazer, o que é julgado como bom e saudável.
E aquele universo todo diante dos meus olhos me engolia mais e mais a cada passo que eu andava. O mundo é uma bolha gigante sem saída. E eu estava lá dentro também, sem ter pra onde correr, pra onde fugir e esconder de mim aqueles pensamentos em estado de ebulição. Os movimentos, os sons, as luzes das lâmpadas me invadiam sem cessar, sem autorização. Eu não fazia parte de nada, ao mesmo tempo que me engoliam por inteiro.

E num outro instante, como se um rio invertesse o rumo de suas águas, minha formulação de idéias excêntricas inverteram-se. Afinal, eu também engolia tudo ao meu redor. Sugava as pessoas, afogava-as, fazia delas a minha base, a minha felicidade egocêntrica, a minha ilusão egoísta e me satisfazia delas para curar feridas, sem perceber o quanto isso as esfolavam por dentro.

Pode ser incompreensível demais. Talvez uma admissão de loucura. Talvez todas as circunstancias e fatos vividos nos últimos tempos tenham me levado ao limite da sanidade. Mas dessa vez não se trata de fraqueza, de medo, de insegurança. Trata-se de proteger os sentimentos, tanto meus, quanto os seus, quanto os deles. Trata-se de motivos coerentes, de me arriscar para ninguém mais correr os riscos que me pertencem, que são resultados dos meus erros e acertos.

Chegou o momento onde é preciso isolar-se. Sentir-se fora do meio, longe da multidão corrompida. É preciso me encontrar, me entender, me sentir. É preciso recompor meu espírito, recompor minha vida, curar as feridas e redimir os crimes cometidos àqueles que amo e que quero bem, mesmo na distancia.